domingo, 13 de novembro de 2011

A FALECIDA, O DONO DA FUNERÁRIA E O MERCADO DA MORTE


A mãe do meu amigo faleceu.

Tristeza!

Coisa da vida.

Enquanto meu amigo foi ao hospital liberar o corpo fiquei na funerária aguardando. Chegado o corpo, o pessoal da funerária foi prepará-lo.

Isso eu não quis ver era demais para mim!

Escolher o caixão de vários preços é uma tarefa não muito simples, pois o preço varia de acordo com a emoção do parente. Pode ser mais caro ou mais barato, pode ser luxuoso ou mais simples. Na verdade isso não importa para quem morreu.

O meu amigo escolheu um de 1.950,00, lembro bem, mais a mortalha 30,00, mais a coroa cujo valor não recordo e mais algumas coisas, mas passou de 2.500,00.

Enquanto meu amigo foi ver a situação do túmulo no cemitério fiquei eu, a falecida e o dono da funerária.

O pedreiro foi acionado para arrumar o túmulo da família, mais um negócio.

O dono da funerária, muito solícito por sinal, bom vendedor, resolveu mostrar-me as instalações da funerária, por sinal, muito boas, arejadas, limpas, decoradas com plantas e flores e, com orgulho, falou que tinha dois ambientes para o caso de haver dois velórios ao mesmo tempo, na maior naturalidade.

Claro, é o negócio dele, nada contra.

Mostrou a parede cheia de certificados e diplomas de cursos para cuidar dos mortos. Um em particular me chamou a atenção: “Tratronopraxia Avançada de Terapia Facial”. Realmente, a falecida estava muito bonita e os parentes e amigos diziam:

“Nossa, parece que ela está dormindo!”

Verdade, o sono é irmão da morte.

A falecida nem aí para todo esse conforto.

O faturamento anual da funerária?

Ora, os dados estão aí, é só fazer as contas.

Conversa vai, conversa vem, fomos para as estatísticas e ele disse: “Anteontem enterrei quatro e hoje mais quatro, só neste mês, até o dia 29/01/2001, enterrei vinte e no ano de 2010 cerca de duzentos”.

Cheguei à conclusão que o mercado da morte estava em alta.

Eu perguntei: “E quando você dorme?”

Respondeu: “Sempre vou dormir, fico de plantão porque a gente nunca sabe quando a morte vem”.

É que na porta tinha um luminoso escrito “plantão” com o número do telefone.

Trágico, mas realidade.

Sempre leio os artigos dos colunistas dessa página e eles escrevem sobre educação, economia, política, polêmicas da sociedade, enfim, dos mais variados assuntos. Esses artigos são interessantes, informativos e de conhecimento, é claro. Nos telejornais também falam sobre a variação do dólar, do PIB, das bolsas de valores, de quantos aparelhos celulares, eletroeletrônicos, da quantidade de carros produzidos, da inflação e é claro, da geração de empregos.

Pois é, mas nunca vi uma notícia assim: “No período de tal a tal foram produzidos tantos caixões, coroas e mortalhas que geraram uma receita de tantos milhões de reais e geraram tantos empregos com carteira assinada”.

Engraçado, não é não?

Pois é, a morte faz parte da vida e também do mercado de trabalho, dos negócios.

Morbidez minha, não, realidade!

Antenor Gabriel

Observador do Cotidiano

antenorgabriell@hotmail.com

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